Sobre o blog

Vida de ponto-e-vírgula: o modo de vida assim nomeado define-se negativamente: não é ponto, mas também não é vírgula. A vírgula alterna as coisas com muita rapidez. O ponto final é sisudo, sempre encerra períodos! Bem melhor ser ponto-e-vírgula: uma pausa que não é definitiva, e uma retomada que sempre pode ser outra coisa...



domingo, 27 de junho de 2010

Quem tem medo das rugas?

Ela se olha no espelho um pouco desapontada. Sente que envelheceu muito nos últimos anos mas, apesar disso, não odeia o tempo. É certo que algo nela mudou: aquela menina que desejava crescer, ficar adulta, agora já não aceita com tranquilidade a ideia de que rugas lhe venham enfeitar a face, mas não é ainda o desespero das ridículas mulheres que escondem a idade. Talvez hoje consiga compreendê-las melhor, mas repete para si mesma que não quer ficar como elas. Acha deprimente mentir a idade, é demais pra cabeça dela. Estudou o suficiente pra saber que esse sentimento pesado de envelhecer não tem nada de natural , mas é antes fabricado na gente, nos toma por inteiro se deixarmos e nos faz  desprezar aquele que pergunta  "quantos anos você tem?", como se fosse um criminoso, por violar a regra de ouro da  nova etiqueta social. Modos de existir são fabricados no interior desses discursos.

Assistir a juventude ir aos poucos sendo trocada pela maturidade, as carnes ficando moles, a pele menos elástica, os cabelos sem o viço de outrora, pedindo tintura, o corpo menos ágil... Definitivamente, não é nada fácil, sem dúvida. Ela faz planos, diz que vai trocar a vida sedentária por uma rotina de exercícios, uma alimentação mais equilibrada - sem excessos - e promete que reduzirá o consumo de doces - sua maior perdição. Pelo menos, já cortou o refrigerante, há duas semanas.

Na adolescência, escrevera numa redação do colégio que gostaria de ficar pra sempre com 16 anos, não crescer, não mudar. Mentira. Já sabia então que era mentira. Queria crescer, sim, envelhecer, ser adulta. Achava bonito fazer aniversário. Acreditava que lamentar a passagem do tempo, além de ser burrice, é coisa de gente que não valoriza a vida. Agora, não é que o discurso tenha mudado, mas como dizia Cora Coralina, "na prática, a teoria é outra". 

Querer viver sem envelhecer é o paradoxo humano que a indústria de cosméticos explora para vender cremes antiage: “seja feliz com sua idade, mas não esqueça de disfarçar os sinais do tempo”. Paradoxal ou não, a menina que gostava de envelhecer está com medo do que a idade reserva pra ela...

O companheiro diz que está muito mais bonita hoje do que há dez anos, quando a conheceu. Ela sorri, mas não concorda. Aproxima-se dele e beija-o no rosto. É um homem gentil, delicado e apaixonado e, esses atributos, antes de o desqualificarem, o autorizam ainda mais - ela pensa.
Dispara:
- nada é mais bonito que uma menina na flor da idade. E ele, em tom de reprovação:
- nada disso, você está enganada.

***
Na farmácia, compra duas caixas de coloração para cabelos na cor chocolate, que aplica no banheiro de casa, sozinha. Isso não vai parar o tempo, e nem é isso o que deseja. Quer apenas se reconciliar com o espelho, lembrar a menina de 16 anos. Cuidar-se. Ser contraditória é a cara dela.

2 comentários:

Bruno disse...

Não sei bem como começo esse comentário. Se como crítica ao consumismo agregado à valores estéticos que euforizam a juventude ou como elogio ao envelhecer, com todas as suas boas venturas. A segurança, a calma no pensar, a cabeça mais organizada (com cabelos brancos ou menos cabelos). Algumas alegrias e percepções que só a idade permite, como a noção de tempo mais prolongada são coisas boas da vida adulta. Felizmente pudemos chegar a tanto (espero que a mais) e podemos também, graças aos caminhos percorridos, pensar sobre isso.

Bia Loivos disse...

Adorei o seu comentário. É verdade. Eu ia mencionar os prós do envelhecer também, pra não ficar parecendo que não os considero, mas achei que ia ficar grande demais o post. Fica pra uma próxima postagem.
Ou pra um post seu, o que acha?